quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Madiba


Imperdível. Assista Invictus em cartaz nos cinemas.
Direção primorosa, simples e envolvente de Clint Eastwood. Morgan Freeman não representou Nelson Mandela, ele assimilou sua alma, até nos pequenos detalhes. Matt Damon pareceu gigante no olhar. Nunca entendi nem gostei de rugby, saí conquistada.
Que o esporte tem um infinito poder de agregar pessoas de todas as raças, credos, nações, nós já sabemos e frequentemente as artes retratam histórias da vida real, que nos encantam e emocionam.
Mas essa História real é especial e recente e transformou uma nação, um continente e o mundo pela força do exemplo, do perdão e da generosidade.
Me deliciei com um Madiba (apelido carinhoso de Mandela dado por seu povo) estudando como um colegial para aprender o nome de cada um dos jogadores, perguntando pela família de seus seguranças, servindo ele mesmo o chá ao seu convidado, arrumando sua própria cama ao levantar. Apenas um homem, que erra, que se ressente pela falta da filha, da família e que tenta afastar essa dor substituindo-a por uma família de 43 milhões de pessoas. Pela grandeza e sensibilidade com que inspira seus jogadores de rugby levando-os a ensinar seu esporte às crianças carentes nas favelas tão distantes de seus olhos e de seu coração. A cena em que recebe o capitão do time representado por Damon e fala de inspiração nos toca a alma.
Eu disse acima que Clint Eastwood fez um filme simples, acho que é o que ele pretendia que sentíssimos. É direto, franco, claro, mas paradoxalmente é sutil, delicado e deixa muitas mensagens transitando nosso universo interno.
Na verdade é uma grande obra de arte. Vale a pena conferir.

Trecho do poema Invictus do poeta ingles Willian Ernest Henley
que inspirou Nelson Mandela nos seus 30 anos de prisão:

"Eu agradeço a Deus pela minha alma indomável.
Eu sou o senhor do meu destino.
Eu sou o comandante da minha alma."

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

admiração

Quanto mais sabedoria e genialidade maior a capacidade de traduzir na simplicidade das representações os complexos significados.
(bem se ve que me falta uma eternidade para tentar alcançá-los rs)
Da observação da natureza, das pessoas, da vida nascem as idéias, as ciências, as perguntas em busca de respostas.
Temos na história da humanidade exemplos inumeráveis de homens e mulheres que construiram o pensamento, as artes, as ciencias, a literatura.
Admiro em especial não somente a originalidade de uma idéia, mas a espontaneidade com que surge, a criatividade de brincar com as fantasias imaginárias, a determinação, flexibilidade e disciplina para organiza-la e uma grande dose de fé para investir em algo inteiramente novo.
...

Simplesmente João Guimarães Rosa:

"O correr da vida embrulha tudo.
A vida é assim: esquenta e esfria,
aperta e daí afrouxa,
sossega e depois desinquieta.
O que ela quer da gente é coragem."

"Digo: o real não está na saída nem na chegada. Ele se dispõe para a gente é no meio da travessia."

"As coisas mudam no devagar depressa dos tempos."

"Penso que chega um momento na vida da gente em que o único dever
é lutar ferozmente por introduzir no topo de cada dia,
o máximo de eternidade..."

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

indignação


Aos 40 anos, mulher experiente, mãe de uma jovem de 22, sabia bem que algo estava errado com aquelas dores no baixo ventre. Cedo demais para serem dores de parto, eram apenas 6 meses e sua Beatriz ainda não estava pronta pra vir pro mundo. Acordou o marido e foram ao hospital público. Desde o ano passado, quando ele perdeu o emprego, perderam o convenio médico. No caminho assustou-se com um sangramento e as dores que se agravavam. Chegaram e ela mal podia mover-se. O marido teve que brigar para que trouxessem uma cadeira de rodas. Houve uma imensa demora pra que fosse atendida.Logo após ultrapassarem uma porta restrita, em que o marido não pôde mais acompanhá-la, a enfermeira, grávida, ordenou rispidamente que deixasse de frescura e fosse ao banheiro vestir o avental. Estavam no chamado Pré- parto. Foi arrastando-se e sozinha, no banheiro, aumentando as dores, gemia, sendo jocosamente imitada por um médico, único homem no local. Angustiada, assustada, temendo pela filha, percebeu que iria nascer ali mesmo e gritou aos berros pedindo ajuda. Nesse instante a criança saiu de seu ventre, ficando presa apenas pelos pés, e pelas mãos protetoras da mãe que assim impediram que ela caísse ao chão frio. Finalmente vieram ao seu encontro, ainda tratando-a com rispidez e sequer avistaram que o bebê havia nascido. Ao ser avisado o médico correu a pegá-lo e a dizer que devia já estar morto pois estava roxinho. Sua pequena Beatriz, corajosamente lutou pela vida por 8 dias na UTI neonatal. Sua mãe acredita que se tivesse sido atendida como deveria, com respeito e dignidade, com profissionais que fossem ao menos humanos, sua filha poderia estar em seus braços.

...

Essa é uma história real. Realizei um trabalho diferente da minha rotina nas últimas semanas. Devido ao aumento significativo da taxa de mortalidade infantil (neonatal), fizemos um estudo revisitando as mães. Extremamente delicado e doloroso faze-las reviver todo esse processo, ainda assim ouvi de muitas que queriam mesmo poder falar para que outras mães não viessem a passar pelo que elas passaram. Claro que nem todos os casos tem alguma relação com falha humana, ou negligencia do serviço público. Mas é absurdamente angustiante e revoltante ouvir relatos como este. E inaceitável que fatos dessa natureza aconteçam impunemente. Aquela enfermeira na história acima estava grávida! Em nenhum instante ela pôde se colocar no lugar daquela gestante? Ninguém se imagina ou imagina uma pessoa amada naquela mesma situação? Se imaginasse teria feito a mesma coisa? O que diferencia um e outro? Por que a minha dor seria maior ou mais importante que a dor do outro?? O que foi capaz de tornar criaturas tão indiferentes e desumanas, num lugar carente de qualquer pequeno olhar, qualquer mínimo calor humano?

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

escrever


Recebi um email de uma amiga querida sobre uma espécie de curso sobre técnicas de escrita. Acendeu uma fagulha aqui dentro. Nem me lembro desde quando percebi que gostava de escrever. Na escola sempre me saía bem em portugues e redação. As amigas adoravam os cartões mais que os presentes rs. Conquistei meu primeiro amor com inúmeras cartas apaixonadas. A partir daí e do casamento, toda essa energia ficou focada em uma única pessoa: para reacender o romance, para esclarecer brigas, para fazer as pazes, para me fazer entender e até para DR (discutir relação rs). Separada, volto a me olhar, a redescobrir meus prazeres, minha identidade misturada após tantos anos de vida a dois. E nasceu esse blog. Minha filha jornalista foi a primeira a me incentivar, mas a gente sempre fica meio desconfiada que o afeto acabe influindo um tanto quanto o julgamento. Embora eu deva confessar que ela é especialmente crítica e honesta.
Várias pessoas começaram a comentar de modo positivo. Mas foi a opinião profissional e o incentivo para que eu levasse isso a sério, vindo do meu supervisor (que além de psicanalista é um experiente jornalista), que me fez assumir em definitivo esse desejo.
E eu aprendi que quando desejamos algo fortemente e expressamos esse desejo, tudo começa a conspirar a nosso favor. Por isso sorri meu melhor sorriso quando li o email da minha querida e sintonizada amiga. Vamos em frente. Ainda tenho um livro pra escrever.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

anjo


Dentro de mim mora um anjo.
Não por ser pura ou perfeita.
Muito menos pela ausencia de pecados.
Um anjo que acolhe.
Que abraça, que vela,
que protege, que inspira,
que ama...
Mesmo que eu queira fugir desse destino
está impregnado dentro de mim
no sangue que corre, nos pensamentos que vagueiam,
no sentimento que transborda
Acredito que na verdade sou eu que preciso
dessa tarefa de amar e cuidar
de olhar e escutar o outro
e me sentir preenchida por esse afeto.
Portanto sendo anjo de alguém
faço o mesmo por mim,
mas nessa contabilidade
sempre recebi muito mais do que doei
Talvez por isso, muitas vezes
quando fecho os olhos
sinto uma gratidão tão profunda
e uma leveza tão grande
que devo mesmo possuir asas...

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

a vida e o instante


A gente sabe quando acorda e começa o dia, pelo menos na teoria, que não existe qualquer garantia de que voltaremos a nos deitar naquela cama quando anoitecer. Mas como isso seria absurdamente angustiante nos "esquecemos" desse detalhe na correria do dia a dia, criamos uma ilusão onipotente de eternidade em vida. E bem diante de nós, ao nosso lado, ou tirando mesmo nosso chão, a vida nos quebra ao meio em fratura exposta. Não existe garantia, não existe certeza. Só a vida e o instante, e o que voce escolhe sentir,viver e fazer neles.
Hoje pela manhã, uma colega de trabalho recebeu um telefonema. Seu noivo, um rapaz de 26 anos, forte, saudável, morreu eletrocutado em um acidente de trabalho na empresa em que trabalhava. Estavam com casamento marcado, dinheiro economizado, eletrodomésticos comprados, vida planejada a ser compartilhada a dois. Em uma fração de segundos tudo isso ruiu e uma imensurável dor invadiu todos os espaços.

À ela, enviarei minhas preces, meu abraço e tudo aquilo que de alguma forma possa confortá-la.

À todos nós eu peço que nos lembremos do que é realmente importante em nossas vidas. Deixe de lado, ignore as ninharias, as coisas que voce mesmo sabe que não merecem a atenção que voce está dando. Faça as pazes com quem voce ama e brigou por bobagem. Abrace forte. Beije muito. Ligue e diga da sua saudade. Grite, confesse ou sussurre o seu amor. Não deixe pra depois.
Não deixe nada REALMENTE IMPORTANTE pra depois.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

encontro fortuito

Marcamos um encontro,
assim de improviso,
num intervalo no meio do dia,
e talvez por ter sido assim,
inesperado,
tenha sido especialmente prazeroso.
Encontro fortuito e furtivo
amantes em cúmplice sintonia
dispensando palavras
Deito-me entregue
docemente alheia ao mundo
olhos fechados para intensificar as sensações
a suave brisa lançando meus cabelos sobre o rosto
o gostoso ronco do mar
o cheiro da pele suada
e o meu apaixonado amante,
o Sol,
fazendo amor comigo
deixando-me extasiada
em plena luz do dia
de uma segunda qualquer...

"Coração mistura amores. Tudo cabe."