sábado, 24 de abril de 2010

Lembranças

As lembranças das quais me recordo são absurdamente pequenas em número, considerando os tantos anos já vividos. Desconfio que deve existir uma falha qualquer nos neurônios que compõem minha memória e muitas vezes fico receosa que aquela doença tão sofrida, a que apelidaram “o alemão”, como se ironizando a tornasse menos assustadora, venha a me alcançar algum dia.

Outras tantas vezes imagino que talvez a minha mente só permita o acesso às coisas realmente importantes da minha vida, cuja intensidade da emoção, quase sempre agradável, criou uma marca indelevelmente doce em minha alma. Posssivelmente, seja exigente e seletiva, pois no que se refere ao exercício do meu trabalho, ela tantas vezes me surpreenda, e aos meus pacientes, com riqueza de detalhes, mesmo tendo passado meses ou até anos que tenha sido relatada.

Talvez porque a saudade esteja tão presente minha memória fez uma viagem de 23 anos. Era hora de almoço, e ao abaixar-me para servir a ração a minha cachorra, senti escorrer pelas pernas um líquido quente e volumoso. Havia estourado a bolsa, isso rapidamente eu entendi, embora fosse a minha primeira gravidez. Muito calmamente comuniquei a minha mãe, que por “coincidência” estava em casa. Ela apavorou-se e fui eu que de modo muito centrado e tranqüilo, fui tomando as providencias: avisar o médico, meu marido e meu pai, e chamar uma amiga da minha mãe para acalma-la. Fomos ao hospital e pouco depois o médico veio me examinar. Ainda vai demorar algumas horas, ele disse e saiu, avisando que a enfermeira o chamaria quando a dilatação estivesse “no ponto”.

As contrações foram surgindo e gradativamente aumentando. Eu apertava a mão do meu marido a cada início e fim, e ele ia registrando o tempo de duração e os intervalos entre elas. Até que a dor tornou-se imensa e senti claramente os pezinhos de minha filha empurrando as minhas costelas, num enorme esforço para nascer. Disse ao pai que chamasse a enfermeira pois estava nascendo, ao que ele tentou me acalmar dizendo que era assim mesmo e tínhamos que esperar. Virei leoa. Chama porque vai nascer agora. Eu sentia uma vontade instintivamente forte de fazer força. O médico chegou, olhou e disse: Já está nascendo! Foi uma correria pra me levar ao centro cirúrgico, e cinco minutos depois de chegar, e finalmente poder fazer a força que todo o meu ser exigia, ouvi o choro da chegada ao mundo da minha filha. Quando colocada sobre meu peito, falei: Nathalia, tá tudo bem, a mamãe está aqui. Ela parou de chorar e virou o rostinho em minha direção. Meus olhos encheram-se de lágrimas, exatamente como acontece agora.

A emoção é novamente revivida e ressignificada, 23 anos depois...Essa determinação de quem agarra a vida firmemente com as próprias mãos, é uma de suas qualidades que mais admiro.

A vida toda eu contei essa história e ela sempre dizia: já sei mãe, você já contou um milhão de vezes.

Ainda contarei outro milhão, porque esta é uma das minhas mais profundas e ternas lembranças. Carrega todo o sentimento, de um amor infinito e incondicional, e do reconhecimento de ser mãe pela primeira vez.

Esse amor materno teceu uma rede que embala e acalenta minha existência...


3 comentários:

Thaís disse...

Que lindo tia!! essa história eu não conhecia.. emocionante.
bjos

Dani Marino disse...

Que lindo! Embora a frase seja clichê, é muito verdadeira: " Só sabe mesmo quem é mãe!"
Meus olhos também se enchem de lágrimas quando lembro da primeira vez que vi a Sofia!
Bjos

Solange Maia disse...

você é muito especial Carla...

saio daqui sempre abastecida de amor...


beijo

"Coração mistura amores. Tudo cabe."